27 de agosto de 2013

Sentimento único aos médicos brasileiros: vergonha

Médico cubano, negro, que chegou para atender onde os brasileiros não querem
É com profunda vergonha que se vê a postura de alguns médicos brasileiros nesses dias de chegada dos estrangeiros para o programa Mais Médicos. Se deram ao trabalho de ir a aeroportos vaiar os colegas que aqui chegam para ir onde ninguém vai, mas não vaiam aqueles que usam dedos de silicone nos postos de saúde ou os que batem o ponto e vão para seus consultórios chiques atender a elite ao tempo que recebem do Estado sem trabalhar.

Para os “siliconados” vale a máxima – que tem sua razão – de que se paga mal ou falta estrutura. Mas esquecem que também há postos e hospitais com equipamentos e falta de profissionais para colocá-los a funcionar. Os médicos brasileiros, a cada dia, mostram a vergonha do corporativismo doentio. Mostram que, ao contrário do que querem a todo custo nos fazer pensar, nunca cursaram medicina para ajudar as pessoas, apenas para ter status e riqueza. E uma certa dose de poder político, por que não?

É sabido até pelos pardais urbanos que vivem equilibrado nas fiações elétricas das cidades que os médicos exercem certa influência política em seus pacientes. Tanto que até ameaçar Dilma Rousseff de “receber o troco em 2014” já o fizeram. Sem contar com colocações do tipo “espero que quem apoia a vinda dos cubanos um dia precise de um médico e apareça onde eu atendo”. Além de corporativistas e elitistas, são chantagistas. Vergonha é a melhor palavra para definir boa parte dos médicos brasileiros.


Os que aqui chegam estão obrigados a atender onde os médicos locais não querem. O governo federal jamais os obrigou a ir aos rincões do Brasil. Jamais os obrigou a realizar atenção básica. Ir de casa em casa, conversar com as pessoas, orientá-las a melhorar sua qualidade de vida, mesmo diante de localidades com problemas estruturais que também fazem vergonha.

A soberba ao afirmar que tais médicos – principalmente os cubanos – são incapazes é algo que dói em qualquer pessoa intelectualmente honesta. 107 países recebem ou receberam profissionais de saúde da ilha caribenha. É prática comum ao redor do planeta a importação de médicos. Mas aqui os nossos não aceitam essa premissa. Simulam até preocupação com direitos trabalhistas. Se tivessem alguma preocupação além do status e riqueza, vaiariam – como dito acima – seus colegas que fraudam o erário e não aqueles que chegam para atender os mais pobres.

Esses que vaiam os cubanos não vão às ruas protestar contra médicos estupradores como Roger Abdelmassih, condenado a 278 anos de cadeia por violentar 37 mulheres. Não vão às ruas reclamar da postura dos planos de saúde que negam inscrição a idosos ou quem eles julgam com alto risco de uso dos serviços que afirmam oferecer. Não dão um pio sobre os inúmeros tratamentos que não são cobertos e só descobertos nos corredores dos hospitais. Se quer se indignam com colegas que vão a restaurantes com seus jalecos os entupindo de bactérias e ajudam a adoecer ainda mais os doentes. Tudo para andar nas ruas e as pessoas verem que ali está um médico.

Talvez parte do devaneio psicológico, da mania de grandeza que alguns exalam pelos poros se dê pelo título de doutor, mesmo mal terminado sua graduação. Termo aliás, imposto às pessoas por dom Pedro II a médicos e advogados. Esses profissionais devem ser tratados por esse pronome. Mais um absurdo brasileiro tratado como natural. Doutor é quem fez doutorado.

O comportamento desses médicos apenas reafirma a justeza do programa federal. A elite de branco apenas assina em baixo a intenção do governo federal de garantir atendimento aos mais pobres. Esse é o xis da questão. E aqueles que querem permanecer atendendo em salas com ar-condicionado madames em seus carrões SUV que continuem a fazer. Mas não tem o direito de impedir que os mais pobres tenham atendimento médico.

Vergonha. Essa palavra de oito letras é o que se sente ao ver a reação daqueles que juram de pés juntos dedicar a vida a salvar vidas, mas vaiam aqueles que estão em solo brasileiro para fazer o que eles dizem que fazem, mas ninguém vê.

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